E todo o claro escurece. Toda certeza se esvai. Tudo transmuta em trevas...
Esperança?
Uma constante variável que o programa não decifra.
Um Fatal Error que trava tudo e nenhum note pad pra mudar o código.
Não há outra coisa a fazer, apenas reinicializar.Apagar a memore cache e recomeçar.
Não isto não é um manual de informática. Talvez se o fosse seria claro que o erro é humano!
Isto é um relato. Nem prosa nem poesia. É um "socorro! Estou renascendo!"
Será que todo mundo tem este momento na vida?
O momento em que percebe que tudo que viveu até ali era apenas um ensaio.
Um teste de resistência. E apesar das dificuldades de se recomeçar a vida se sente mais forte, mais feliz. Mas satisfeito com sua nova fase.
Minha certezas todas se foram. Durante doze anos eu fui ator. Vivendo de sentimento em sentimento, buscando sempre decifrar os segredos e venturas da alma humana e que a modéstia me perdoe, mas com certo grau de louvor neste tópico.
E com tantas almas desvendadas e tantos segredos revelados faltou decifrar as verdades gritantes da alma mãe deste ator. O Eu.
O Eu gritava, esperneava, chorava... Mas o Ator dizia apenas: Deixes de frescuras e cala-te. E repetia esta frase sempre que achava necessário. até a cortina se fechar.
No camarim o Ator olha assustado para o espelho. A maquiagem ainda no rosto não figura mais caracteres ilusórios. É rosto do Eu que lhe olha nos olhos e diz: Morra, pois tua vida não te vale a pena! Que ganhaste até aqui? Olha-me quando criança. Quais eram meus sonhos? Tu os tornaste inválidos. Não te quero amar! Pois és bastardo em mim. És invensão de minha sandice precoce. Te fiz surgir na adolescência. Te alimentei de vida. E me ignoraste! E me esqueceste. Preferes vidas vadias que precisam de um corpo para se fazer passar por vivas a conduzir a vida real que te botei nas costas... Morra!
O Ator que até então calado ouviu tomou a palavra e disse: Quanta ingratidão!!! Que era você antes de mim? Uma vida morna repleta de perspectivas tão mornas quanto. Um menino bobo que se assustava com um voz mais alterada. Um falso projeto de intelectual as voltas com a própria ignorância. Vivendo as meias como cão sem dono. Rogando um espaço num coração qualquer que lhe desse abrigo. Ora, por que me tomas covarde? Não passas de um menino mimado e mau trapilho a quem eu muita vida proporcionei. Morras tu que sois covarde e não tens noção do que é viver.
Tais palavras provocavam calafrios no pobre e amedrontado Eu. Eu por vezes tentou desfazer-se do Ator, que sempre o lembrava de sua covardia. E em doze longos e quase intermináveis anos foi assim. Eu sempre foi tímido, e havia ainda outro problema que o fazia se sentir inferior, mas não vem ao caso. O Ator não. O ator era astuto, dinâmico,seguro em suas atitudes e pleno de suas idéias. O Ator sabia entrar e sair de das situações. Eu não. O ator era quem Eu queria ser...Mas não era. Ora mas porque tantas delongas. Eu completa o Ator e o Ator completa Eu. Porque então um deles precisaria morrer? Porque Eu não era Ator? Eu gostava de escrever. Foi aprender a atuar pra escrever cena. Mas Eu se apaixonou pela Cena e esta criou o Ator. Eu e Ator estavam tão fundidos que já não se sabia mais onde acabava Eu e onde começava o Ator. Mas com o tempo o Ator foi tomando conta da cena da vida de Eu de um modo tão voraz que Eu foi se apagando. Eu já não sabia mais escrever sequer uma linha. Mas o Ator certa feita estava triste. Coisa rara de se ver. E procurou por Eu. Eu estava fraco,quase apagado. Mas tomou a frente mesmo assim. Foi neste dia que por acaso. Eu conheceu o Programador. Eu admirou a inteligência do Programador de tal forma que acreditou que este poderia vencer o Ator num duelo de vida ou morte. Eu se tornou o melhor amigo do programador. E o programador se predispos a ajudar Eu nas questões práticas e lógicas da vida. Tais como: ter dinheiro, ter saúde, ter amores, ter saudades e reencontros. O Ator já não sabia o que fazer tendo que dividir seu espaço com outros dois. E naquela noite em que as cortinas se fecharam e Eu resolveu encarar o Ator de frente:
Morra! Dizia Eu. Morra! Mas mas deixa comigo a perspicácia, a audácia, a coragem de encarar a todos e sorrir contagiantemente, deixe tudo que não te pertence e que eu sem perceber já possuía e emprestei a você. Morra agora que tua vida já não vale a pena.Devolva-me a minha criatividade, que carregaste como se fosse um pertence teu. Me enganaste até onde podes. Roubando tudo que eu ja tinha e tomando como teu. Eu sei que tu tinhas grandes planos. Queria estrelar em telas pequenas, médias e grandes. Queria os palcos dos grandes teatros, queria as palmas de todas as plateias. Queria o flerte de todos os olhares. Pois quer saber? Tu Ator sois visto e aplaudido por uma platéia em um espetáculo, mas e no restante do tempo? Esforça-te em assistir as vidas para copiá-las depois. Quem é então a platéia?Pois bem Ator, eu sou o ator aqui. Eu quero escrever as linhas da minha vida sem depender de outros dramaturgos, pois eu sou o dramaturgo aqui. E quanto a você contente-se em aparecer de vez em quando para uma ceninha qualquer na homilia de Padre Marcos, ou para um evento de escalas microscópicas pois nesta vida perdestes teu espaço no momento em que me anulaste em nome de vidas inventadas.
É foi que Eu tomou as rédeas de sua vida. E deparou-se com um tremendo "E agora?" Eu sem Ator é menos Eu. Mas Eu também aprendeu algumas coisas e está começando a aprender a se virar, auxiliado pelo programador. Eu e o Programador estão desenvolvendo um sistema para gerenciar a vida. Mas Ô projetinho que dá trabalho!